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Planos de Saúde


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James Drane: "Quando não há atenção ao sofrimento do paciente não existe compaixão"


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Antônio Pereira Filho


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Edição 185 - 01/2003

ENTREVISTA

James Drane: "Quando não há atenção ao sofrimento do paciente não existe compaixão"


“Quando não há atenção ao sofrimento do paciente, não existe compaixão”

“Em algumas situações os médicos devem praticar uma Medicina de cuidado, reconhecendo que a morte não é uma derrota, mas algo inevitável. Há sofrimento sem dor e o limite da tolerância é muito individualizado. A introdução da tecnologia obriga que o paciente e sua família participem de decisões que afetem diretamente suas vidas”. Essas são algumas idéias de James Drane, professor emérito de Ética Clínica da Universidade da Pensilvânia (EUA), assessor da Organização Panamericana da Saúde (OPAS) em temas de Bioética e autor de 13 livros e 230 artigos em revistas cien-tíficas. Confira a entrevista que Drane concedeu ao site do Centro de Bioética e ao Jornal do Cremesp, durante sua participação no VI Congresso Mundial de Bioética, que aconteceu em Brasília, em novembro de 2002.

Jornal do Cremesp. Existe um conceito de paciente terminal?
James Drane.
Ninguém sabe com absoluta certeza e de forma fechada quando outra pessoa está morrendo. Um diagnóstico específico relativo a pacientes terminais é algo sempre envolvido com ambigüidades. Mas dizer que é ambíguo não significa que não existam critérios que delimitem quem são os pacientes terminais. Sempre existiu em Medicina exemplos de melhoras repentinas e inesperadas. Realmente parecem “ressurreições”. Mas isso não quer dizer que 99% das pessoas não seguem um processo muito identificável ou que nós não temos as pistas de quem são os pacientes terminais.

JC. Por que os médicos têm dificuldade de deixar de lançar mão de todos os métodos disponíveis para impedir a morte?
Drane.
Quando você está apenas doente, e não morrendo, é ótimo estar sendo cuidado por alguém que acredite: “eu posso fazer isso”. Isso é necessário para fazer você melhorar. Só que não há a necessidade de o médico reconhecer a morte como “a inimiga” ou “a ladra”. Se aprender a diagnosticar com correção a progressão do processo de morte, pode ajudar de maneira mais efetiva seu paciente a ter uma partida digna. Basta mudar a compreensão relativa à palavra “fim”. Assim, em vez de intervir agressivamente como num campo de batalha, conseguirá dar maior atenção, assistência, suporte, tocar realmente naquela pessoa que sofre.

JC. É o que chamam de ortotanásia, a morte digna e humana, na hora certa?
Drane.
Ortotanásia é uma maneira de referir-se a esse tipo de atitude. Outra forma é encarar estas ações como a valorização da “morte humanitária”. A percepção da Medicina a respeito do quanto é importante o morrer bem teve impulso na Idade Média. A única forma de ver-se livre de várias moléstias, na concepção daquela época, era o doente encaminhar-se até santuários e pedir a Deus pela cura. A Medicina moderna mudou essa tradição. Tudo começou a ser avaliado em termos de partes físicas, patologias e intervenções agressivas, como se estivéssemos em um cenário de guerra. Agora, depois de mais de um século, parece que estamos retornando a alguns conceitos de cuidados paliativos.

JC. Mas desde os primeiros anos de faculdade o médico aprende que precisa fazer de tudo para impedir a morte.
Drane.
Acho que o médico que tem como únicos objetivos salvar a vida e impedir a morte pode nem perceber, mas está apenas contribuindo para a manutenção do sofrimento do seu paciente terminal. Será que alguém que aceita e reconhece a morte, que faz um diagnóstico médico correto de que, infelizmente, seu doente está partindo, não estaria ajudando muito mais se prestasse cuidados paliativos? O que queremos fazer, buscar o impossível? Hoje, parece que a medicina tradicional está incorporando a medicina de cuidados paliativos. Trata-se de uma nova especialidade, para a qual os médicos têm que receber treinamento especial.

JC. Quais seriam esses cuidados paliativos?
Drane.
Há alguns enfoques, mas basicamente procuramos ter a certeza, o quanto for possível, de que nosso doente não está sentindo dores físicas. Um especialista em cuidados paliativos deve, por exemplo, conhecer cada milímetro do sofisticado sistema nervoso que vai da coluna vertebral até o cérebro. Lá, estão localizados vários comunicadores químicos de dor. Às vezes, em casos extremos, deverá cortar um nervo, visando acabar com a dor. Então, a assistência médica, técnica, vem em primeiro lugar. Em segundo, os doutores também precisam estar preparados para auxiliar nos casos de sofrimento, sem dor. Entenda: nem toda dor leva ao sofrimento e nem todo sofrimento leva à dor. Exemplo? Se um jogador de futebol defende a bola no tórax, evitando o gol do adversário, sentirá dor, mas não estará sofrendo. Estará feliz da vida. Muitas pessoas que se encontram no final de vida carregam terríveis sofrimentos, mesmo que não sintam quaisquer desconfortos físicos. Algo do “eu interior” delas pode estar machucado, sem que ninguém perceba. Essas dores têm que ser respeitadas!

JC. É um pensamento típico da Bioética, não?
Drane.
Exatamente. Tentar descobrir a fonte interior do sofrimento e empenhar-se em ajudar faz parte das funções de um especialista em cuidados de fim de vida. Este profissional precisa ser sensível. Por tudo isso, o médico que pretende dedicar-se a cuidados paliativos deve ter alguma coisa de psicólogo, filósofo e padre. O sofrimento pode até vir do âmbito espiritual. O doente sofre por estar preocupado com o “julgamento final”, com seus “pecados”. As causas para o sofrimento são variadas e particulares. Quando não há atenção ao sofrimento, não existe compaixão.

JC. O senhor é contrário ou favorável ao que é comumente entendido como eutanásia?
Drane.
Devemos entender a palavra eutanásia com todo o cuidado. Na minha linguagem significa alguém, quero dizer, um médico, finalizar a vida de uma outra pessoa. Etimologicamente, entretanto, eutanásia quer dizer boa morte. Ora, o que eu falo sobre boa morte nada tem a ver com aquilo que é convencionalmente entendido por eutanásia. Definitivamente, matar o paciente não é o que devemos fazer. Se a eutanásia se tornar legal, quem vai sofrer são os mais vulneráveis. Os mais pobres, os mais fracos e parte da população feminina serão os prováveis “candidatos” a perderem as suas vidas.

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