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DSTs


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Edição 335 - 04/2016

EU MÉDICO (Pág. 11)

Horas da Vida


Jovem médico cria ONG para atendimento
 gratuito a carentes

 

Empreendedor e humanista, João Paulo busca um modelo
em que mais pessoas tenham acesso à Saúde

 

   O médico João Paulo Nogueira Ribeiro é idealizador do Horas da Vida – primeira plataforma digital no mundo que viabiliza o voluntariado na área da saúde. O projeto reúne médicos e demais profissionais da saúde, que dedicam horas gratuitas de atendimento a pacientes que não podem pagar.

 Esse ideal remonta a sua infância, quando, inspirado por uma tia que era professora de Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o jovem médico descobriu desde cedo sua paixão pela profissão médica. Sua intuição se confirmou quando os testes vocacionais realizados mais tarde apontavam para sua identificação com a área.

Nascido em Campos Gerais, pequena cidade do interior do Estado de Minas Gerais, logo distanciou-se da família para cursar o ensino médio em Belo Horizonte. E, pos­te­riormente, dos amigos, para se concentrar nos estudos e fazer cursinho em Ribeirão Preto (SP).

Ao ser aprovado em algumas instituições para cursar Medicina, optou por retornar a Minas e estar próximo da família, formando-se em 1999 pe­la Faculdade de Medicina de Itajubá. De volta a São Paulo, iniciou sua primeira Residência, em Clínica Médica, na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

 

Primeiras ações

O afeto pelo paciente idoso também surgiu na infância quando, levado pelos avós, frequentava asilos, para distribuir presentes no Natal entre os idosos, uma tradição da família. Essa vivência foi decisiva para a escolha do médico pela sua segunda Residência no programa de Geriatria, na USP, na qual se tornou especialista.

Aos 42 anos, casado e pai de dois meninos, de 5 e 7 anos, Ribeiro preza os momentos em família e diz conseguir equilibrar o trabalho e sua atenção ao lar. Preocupa-se com a educação dos filhos e, nos momentos em que está com a esposa e os meninos, dedica-se exclusivamente a eles. “Temos o hábito de fazer ao menos uma refeição por dia todos juntos, somos muito próximos”, diz.

O espírito empreendedor de Ribeiro surgiu em 2011, quando criou o ConsultaClick, um site de agendamento de consultas online. “A ideia era colocar quem oferece o serviço em contato com quem dele precisa”, afirma. Associou-se a um amigo português e, juntos, desenvolveram a plataforma, pioneira no âmbito da Medicina. Logo o projeto obteve sucesso no País, seguido pela expansão internacional ligada a grupos de outros países que se interessaram pelo software. Hoje, além do Brasil, a empresa existe em Portugal, Espanha e Romênia.

 

A Hora que pode mudar vidas

Com a experiência e os resultados obtidos com o ConsultaClick, Ribeiro percebeu que em meio a tantas consultas agendadas, o paciente não comparecia em mais de 30% delas. Como só é possível saber que o paciente agendado não comparecerá somente na hora da consulta,  seria inviável avisar outro paciente para comparecer neste horário. Com isso, concluiu que havia ali a existência de uma brecha no atendimento, um potencial horário vago durante o qual profissionais da saúde poderiam realizar um atendimento a quem não pudesse pagar.

O geriatra se viu, então, frente a um novo desafio: amadurecer e viabilizar esse insight. Comentando com amigos, alguns se disponibilizaram a oferecer horas em que estavam livres para realizar atendimentos gratuitos. Assim nasceu o projeto Horas da Vida.

A ONG Horas da Vida existe há mais de três anos e atua em maior concentração nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Florianópolis, mas também está presente em outras cidades. O projeto- piloto, que começou com seis médicos, no final de 2012, hoje conta com aproximadamente 1.600 profissionais de saúde cadastrados, de diversas especialidades. “Mais de 60% desse número são de médicos, mas há também dentistas, nutricionistas, psicólogos e todas as áreas de saúde”, conta o fundador. “O médico que desejar doar horas, pode entrar em contato com a instituição e manifestar o seu desejo em fazer parte do nosso projeto”, sugere.

Os pacientes atendidos são aqueles veiculados a ONGs cadastradas, que se encarregam de selecioná-los com base na urgência e necessidade de cada caso. O primeiro filtro da triagem é que o paciente tenha cartão do SUS e que já tenha tentado esse tipo de atendimento, mas ainda não conseguiu. Segundo Ribeiro, já foram realizados 12 mil atendimentos, graças ao empenho de todos os envolvidos. Do paciente, procura estimular um protagonismo: que ele seja o agente principal de sua cura. “O sistema é muito paternalista”, diz.

O foco dos atendimentos são os casos de baixa complexidade, o atendimento primário. Não atende urgências ou realiza cirurgias, por exemplo. Mas devido às parcerias realizadas ao longo de sua existência, a ONG está conseguindo avançar e estender o atendimento a exames  em laboratórios que apoiam­ o projeto. “O Horas nasceu não para ser uma alternativa ao SUS, e sim para servir como uma forma de apoio para diminuir as lacunas do sistema”, enfatiza Ribeiro.

Otimista, acredita que o médico brasileiro é focado e pensa no outro. “Aqueles que continuam na área, apesar das dificuldades da profissão, têm vocação”, acredita. Em sua opinião, o projeto proporciona ao profissional o resgate dessa humanização, quando este consegue ajudar a quem precisa. Ele próprio dedica 60% do seu tempo, atualmente, ao instituto e, nos 40% restantes, atende em seu consultório particular, além do trabalho como médico assistente na Unifesp.

Para expandir o serviço, o Instituto Horas da Vida quer aumentar os financiadores e continuar com seus valores humanísticos. “A medicina se superespecializou e acabou muito fragmentada. Mas nós não tratamos de um joelho ou um coração, e sim de uma pessoa inteira. É importante e imprescindível manter esse olhar sistêmico”.

 


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