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PÁGINA 1
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PÁGINAS 4 E 5
Cartas e notas


PÁGINAS 6,7,8,9,10 E 11
Entrevista


PÁGINAS 12 E 13
Crônica


PÁGINAS 14, 15, 16 E 17
Dossiê Acupuntura: uma breve história


PÁGINA 18
Dossiê acupuntura relato de caso


PÁGINAS 19,20,21,22,23
Dossiê acupuntura: panorama


PÁGINAS 24, 25, 26 E 27
Dossiê acupuntura em foco


PÁGINAS 28 E 29
Dossie Acupuntura: Vanguarda


PÁGINAS 30 E 31
Tecnologia


PÁGINAS 32 E 33
Medicina no mundo


Páginas 34 e 35
Opinião


páginas 36,37 e 38
Hobby


PÁGINAS 39,40,41 E 42
Gourmet


PÁGINAS 43,44,45 E 46
Agenda Cultural


PÁGINA 47
Resenha


PÁGINA 48
Fotopoesia


GALERIA DE FOTOS


Edição 88 - Julho/Agosto/Setembro de 2019

PÁGINAS 6,7,8,9,10 E 11

Entrevista

Médica atleta ou atleta médica?

Aos 13 anos, ela sentava ao lado da porta do clube do qual não era sócia, para esperar o diretor de Esportes e pedir para treinar vôlei. Desde então, determinação, foco e esforço não são meras palavras para a médica e ex-atleta profissional Patricia Moreno Grangeiro.

Como atleta, jogou pela equipe profissional de vôlei Pão de Açúcar/Colgate e pela Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, onde foi campeã do Southeastern Conference (SEC), do período 1991-1994; e finalista do Final Four (disputa dos quatro melhores times de vôlei dos EUA), em 1991-1993. De volta ao Brasil, para conciliar um esporte com o curso médico, que tinha trancado, passou a praticar remo e, logo em seguida, em 1997, foi campeã sul-americana nesse esporte, na modalidade quadruple skiff; e, em 2011, no oito.

Enquanto avançava em sua trajetória como atleta, Patricia foi também consolidando um extenso currículo profissional. Formou-se médica pela Faculdade de Medicina da USP, onde também fez Residência em Ortopedia e Traumatologia, e especialização em Ortopedia Pediátrica; fellowship em Reconstrução e Alongamento Ósseo, no Sinai Hospital Baltimore, nos Estados Unidos; pós-graduação em Medicina do Esporte, na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e doutorado pela FMUSP, onde atualmente é médica assistente do Instituto de Ortopedia. Quando jogava vôlei nos Estados Unidos, fez também o bacharelado em Neurociências, na Universidade da Flórida.

A experiência no esporte e na Medicina levou Patricia a idealizar e criar o Instituto Remo Meu Rumo, com a colaboração de seu marido e de amigos. Por meio dele, crianças e adolescentes com deficiência física encontram no esporte o incentivo para melhorar o condicionamento físico e a autoestima.
Ela é também mãe de Artur, que a acompanha em muitas atividades do Remo meu Rumo. "Ele vai crescer acompanhando-nos neste trabalho e, também, junto com as outras crianças. Isso vai influenciar positivamente a sua vida", resume.


Patrícia atuou como atleta profissional no volêi e no remo, mas nunca abandonou a medicina 

Ser Médico – Além de fazer Medicina, você foi uma atleta profissional no vôlei e no remo. Como tudo começou?
Patricia – Comecei a jogar vôlei por volta dos 13 anos. Morava em São José dos Campos, mas não era sócia do Tênis Clube, onde havia uma equipe do esporte. Então, depois da escola, na parte da manhã, chegava em casa, almoçava, pegava um ônibus e ia para a frente do clube. Ficava sentada perto da portaria esperando o diretor de Esportes voltar do almoço. Aí eu perguntava: "tio, posso jogar hoje?" Fui fazendo isso todos os dias. Minha mãe nem sabia. Só que eu chegava uma hora antes do início do treino, pegava as bolas e ficava treinando na parede. Mil toques, mil manchetes, mil cortadas... Treinava muito e nem era tão alta ainda, pois cresci bastante entre os 15 e 17 anos. Mas eu dizia para mim mesma: ‘se eu não treinar, não vou conseguir’. Depois chegava toda a equipe e treinava junto, de segunda a sábado. Tinha escolhido fazer isso. À noite, durante e nos fins de semana, voltava a estudar. Comecei a ser uma parte importante da equipe e ganhei a carteirinha de atleta do clube.

Ser Médico – Como você conseguiu equilibrar esporte profissional com os estudos?
Patricia – Fui crescendo, treinando muito, mas sem esquecer os estudos escolares, que sempre levei muito a sério. Durante a adolescência, escolhi me dedicar a jogar e a estudar. Queria muito ser médica. Meu pai tinha Doença de Parkinson e isso me ajudou a escolher a profissão. Meus pais me incentivavam muito, tanto a fazer Medicina quanto a continuar a prática de esportes. No vôlei, aos 15 anos, eu já ganhava destaque devido à dedicação. Logo depois, mesmo tendo de estudar para o vestibular, continuei jogando.

Ser – Quando começou a jogar profissionalmente? 
Patricia -
Fui convidada, quando tinha entre 17 e 18 anos, a jogar pela equipe Pão de Açúcar/Colgate, em São Paulo. A Fofão era do meu time. Quase ao mesmo tempo, passei no vestibular da Faculdade de Medicina da USP e fui levando as duas atividades. Nesse período, convidaram-me para jogar nos Estados Unidos, pois quando estava no Pão de Açúcar/Colgate havia duas jogadoras norte-americanas e, quando elas voltaram para os EUA, indicaram-me a treinadoras de times de universidades de lá, onde o esporte é muito forte. Aceitei o convite, tranquei a matrícula na Medicina, no segundo ano, e fui estudar e jogar no time de vôlei da Universidade da Flórida.

A médica ganhou campeonatos importantes no vôlei e no remo.

Ser – Foi nesse período que fez Neurociência?  
Patricia
– Sim, fiz o bacharelado durante os três anos, em vez de quatro, porque consegui transferir alguns créditos da Medicina da USP. Tinha uma bolsa de estudo integral, com acomodação, refeição etc.

Ser – Como se deu a mudança do vôlei para o remo? 
Patricia – No período em que joguei vôlei nos EUA, fazia parte do preparo físico o treino em um aparelho simulador de remo chamado remoergômetro. Gostava muito e me saía bem. Quando decidi voltar ao Brasil para terminar Medicina, depois de finalizar o bacharelado, comecei a treinar mais nesse equipamento.


No Instituto Remo meu Rumo, Patrícia conseguiu unir esporte e a Medicina

Ser – Foi mais difícil conciliar o esporte com a faculdade?
Patricia – Quando voltei para São Paulo, precisei decidir se continuava a jogar vôlei profissionalmente, pois era incompatível com o curso de Medicina. Como esporte essencialmente de equipe, ele demanda mais tempo de treinamento, geralmente de manhã e à tarde. O remo, na verdade, foi uma alternativa mais adequada aos horários da faculdade. Basicamente, treinava três horas por dia, sendo 1h30 de remo, de manhã, e 1h30 de exercícios, como, por exemplo, musculação, à tarde, que eu podia fazer perto da faculdade. Acordava às 4h30 da manhã e, às 5 horas, tinha de estar na água remando na raia olímpica da USP, e, às 6h30, ia para a faculdade, pois estava no internato. À tarde, fazia o treino físico.

Ser – Foi difícil começar a praticar um novo esporte?
Patricia – Tinha a experiência com o remoergômetro e um bom preparo físico, que é muito importante nos Estados Unidos, e para o remo. Assim, consegui me destacar. Nesse mesmo ano, fui campeã brasileira e sul-americana de remo. Comecei a competir, no remo, pelo Clube Espéria, que não existe mais. No 6º ano da faculdade, passei na Residência para Ortopedia, mas não me matriculei, pois fui convidada para remar pelo Vasco da Gama, no Rio. Lá, além do remo, fiz especialização em Medicina do Esporte. Fiquei dois anos, voltei, prestei a prova de novo para Ortopedia e passei. Depois competi pelo Clube Pinheiros, quando fui campeã brasileira em 2009 e 2010, num retorno ao remo. Então, logo que o remo entrou em minha vida consegui algum resultado. Mas nunca deixei de lado a parte acadêmica, sempre a levei bem no paralelo. Às vezes, deixava no stand by, mas depois voltava a estudar. Nos EUA, há uma facilidade maior para levar paralelamente, mas aqui você precisa realmente querer.

Ser – Você ganhou vários prêmios...
Patricia – Nos Estados Unidos, nossa equipe foi duas vezes para o Final Four, uma disputa entre os quatro melhores times norte-americanos. Nos três anos em que estive lá, jogamos 110 jogos e ganhamos 100. Era um score muito bom. A minha treinadora foi eleita, por duas vezes, a melhor técnica de vôlei dos EUA. Em 2009, entrei no Instituto de Ortopedia da FMUSP como assistente, ou seja, como parte do corpo clínico. Tinha acabado de voltar de um fellowship, no hospital norte-americano Sinai Baltimore, e retomei o remo. Foi nessa segunda fase que fui para o Clube Pinheiros. E me dediquei bastante, daquela mesma forma: das 5h às 6h30, vinha para o hospital, e fazia uma sessão de treino à tarde. Nesse ano, fui campeã brasileira novamente.


"O remo tem um impacto importante na condição física das crianças com deficiências congênitas ou adquiridas"

Ser – Como surgiu o Instituto Remo Meu Rumo?
Patricia – Depois de remar, quando eu chegava no hospital, atendia os pacientes crianças e adolescentes com deficiências físicas congênitas ou adquiridas e imaginava que podiam ter a mesma oportunidade que o esporte me deu. Perguntava para eles se faziam alguma atividade esportiva e muitos deles não faziam nada, pois eram afastados das aulas de educação física, ou não tinham oportunidades, pois não havia locais que oferecessem esportes adaptados para eles. Essas crianças têm uma rotina muito diferente de uma infância típica. Elas têm fisioterapia quase todo dia, psicóloga, fonoaudióloga etc. Fiquei, então, imaginando como seria bom se elas tivessem um lugar para fazer esporte e aprender seus valores, como compromisso, disciplina e amizade. Nessa época, eu treinava bastante no Clube Pinheiros, convidei alguns pacientes para fazerem remo lá e treinava junto com eles. Foi surpreendente como deu certo. Sobretudo nos jovens com paralisia cerebral pude perceber que o remo tinha um impacto enorme na condição física. Eles melhoravam a força, a marcha e o equilíbrio. Fiquei com muita expectativa de que isso pudesse ser bom para essa população. Mas não era tão fácil, pois os clubes estão equipados para pessoas que tenham um potencial competitivo. Fiquei sonhando com isso por muito tempo, mas não tinha como colocar em prática. Até que, em 2013, com a ajuda do meu marido, Ricardo Macéa, que é administrador, tivemos a ideia de montar uma Organização Não Governamental (ONG), a Remo meu Rumo. Hoje, ele é o diretor executivo dela. O presidente é o Candido Leoneli, um ex-executivo do mercado financeiro que rema há 50 anos e, atualmente, faz, também, faculdade de Medicina; e a Ana Helena Puccetti, uma amiga que é a maior remadora de todos os tempos no Brasil, e psicóloga, e que também foi campeã sul-americana comigo. Ela ainda rema todos os dias. Desde o início, tivemos muitos voluntários. Em 2015, conseguimos ampliar o atendimento, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, e passamos a ter outro professor de educação física, fisioterapeutas, psicólogos e assistente social, com aumento da oferta de dias. São duas sessões, de segunda a quinta-feira, de manhã e à tarde, e aos sábados. Atendemos mais de 200 crianças desde que criamos a ONG.

Ser – Como as crianças reagem e onde elas treinam o remo?
Patricia – Na raia olímpica da USP. Nossos alunos com deficiência motora melhoram muito com ganhos tanto nos aspectos físicos, quanto emocionais e sociais. O ambiente proporciona ganho de autonomia pela prática do remo e canoagem. A equipe estimula todas as potencialidades dos alunos e eles reagem com melhora da autoestima e da confiança. A idade varia entre 6 a 22 anos. É uma transição do ambiente hospitalar, pois elas continuam fazendo fisioterapia, só que de outra forma. As crianças com paralisia cerebral, por exemplo, fazem fisioterapia desde bebês. Chega um momento em que elas não aguentam mais. Fazendo remo, é diferente, elas ficam motivadas, e socialmente é muito bom. Infelizmente, há pouquíssimas coisas para essas crianças. E mesmo a gente oferecendo, as pessoas têm muitas barreiras: transporte, desafios financeiros etc. A raia da USP é um oásis em São Paulo. As próprias famílias, quando chegam lá, sentem-se muito bem e aproveitam para fazer uma caminhada, tomar sol, faz muito bem.

Ser – Como fazer para ser voluntário?
Patricia – Em nosso site temos um pequeno banner para quem quer ser voluntário e um de captação, para a inscrição de crianças. A gente tem bannerzinho até de doação, porque a Lei de Incentivo Fiscal é muito engessada e nossas despesas são muito grandes: equipe, equipamentos, contador etc. Temos de fazer uma prestação de contas enorme.

"TREINEI MUITO, GOSTARIA DE TER PARTICIPADO DE UMA OLIMPÍADA (...), MAS O QUE IMPORTA É O QUE ACONTECEU NA MINHA VIDA DURANTE ESSE SONHO"

 

Ser – Seus colegas médicos podem encaminhar pacientes?
Patricia – Sim, podem. Sempre temos vagas, pois há uma grande rotatividade entre as crianças.

Ser – Como se sentiu ao carregar a tocha olímpica na última Olimpíada?
Patricia - Carreguei a tocha olímpica, e meu marido carregou a tocha paralímpica. Acho que, talvez, sejamos único casal do mundo que tem as duas tochas, pois a gente a leva para casa. Fiquei muito emocionada, as crianças foram lá ver... Foi muito bacana. Uma coisa que a gente fala sempre entre esportistas é que não importa o destino final, mas, sim o caminho, a trajetória. Treinei muito, gostaria de ter participado de uma Olimpíada, que é o símbolo maior do esporte, e sempre foi um alvo para mim. Mas o que importa é o que aconteceu na minha vida durante o período que tive esse sonho.

Ser – Além de sua admirável trajetória como atleta, você tem um currículo muito bom na Medicina. Qual é sua prática médica atual?
Patricia – Sou médica assistente na Ortopedia Pediátrica e na Neuro-ortopedia do Instituto de Ortopedia da FMUSP. Completei meu doutorado também. Tenho uma dedicação muito grande a este instituto, quase como uma missão. Gosto muito de trabalhar aqui.


Ser – Como resumir a atuação na Medicina e no esporte em sua vida?
Patricia – No meu caso, posso juntar as pontas da minha vida, porque você tem de juntar os pontos... Era muito engraçado, quando voltei a remar no Clube Pinheiros, falavam que eu era uma médica atleta. Eu dizia que era uma atleta médica. Então, sempre teve essa questão: sou uma atleta médica ou uma médica atleta? Hoje em dia, acho que não sou atleta mais. Sempre achei o esporte muito importante para a formação de uma pessoa. A Medicina é uma missão. E sou muito feliz de poder unir ambas atividades no Instituto Remo meu Rumo. Além de tudo, uni minha família, já que meu marido trabalha lá, e isso fortaleceu nossa relação. É uma união de alma. Fortaleceu também nossos laços com alguns amigos, como o Cândido e a Ana Helena.

Ser – E a maternidade, o que significou para você depois de toda essa trajetória?
Patricia – Ser mãe é um grande privilégio. Como ortopedista pediátrica, já tinha muito respeito pelas mães e pais. Sempre falo que, quando os pais entregam os filhos para serem levados ao centro cirúrgico, estão entregando o maior tesouro da vida deles nas minhas mãos. Então, é preciso um vínculo de confiança muito forte. Hoje, mais do que nunca, percebo a grande responsabilidade de ser mãe e esse amor sem medida. O Artur, para mim e para o meu marido, é um presente. Ele vai conosco aos treinos da ONG desde bebê. Vai crescer ali, com as outras crianças, vendo a gente fazer esse trabalho. Temos certeza de que isto será uma influência muito positiva para a vida dele.
   PARA CONTATAR O INSTITUTO REMO MEU RUMO:
Site: www.remomeurumo.org.br
Telefone: (11) 96606-7006

 Colaborou: Arthur Codjaian Gutierres   

Acesse a versão digital da Ser Médico na íntegra.


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