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Edição 20 - Julho/Agosto/Setembro de 2002

Cultura

Gaudi. Fantasias talhadas em pedra

Gaudi. Fantasias talhadas em pedra.

Fernando Serapião*

Este é o Ano Gaudí. É assim — com centenas de exposições, conferências e outros eventos — que a Espanha, e sobretudo Barcelona, comemora os 150 anos de nascimento do arquiteto Antoni Gaudí y Cornet. Autor de uma obra mágica, marcada pela religião e pelo nacionalismo, o projetista deixou para a posteridade fantasias talhadas em pedra e cerâmica. De difícil classificação, seu trabalho é um dos ícones da criatividade do povo catalão.

Gaudí nasceu no dia 25 de junho de 1852, em Reus, cidade localizada ao sul de Barcelona. Filho de um construtor de caldeiras, teve problemas de saúde que lhe causavam dores e febres reumáticas. Isso o privou de parte da alegria da infância. Viveu à base de dieta vegetariana e, quando saía da cama, tinha dificuldades de locomoção. Chegou a ser carregado por um burro. Talvez essas privações despertaram a vocação religiosa que o acompanharia por toda vida. Na região onde nasceu, fez os primeiros estudos, destacando-se em línguas. Apesar disso, “o mais catalão dos catalões“, como o definiu o pintor uruguaio Torres Garcia, só comunicava-se em catalão. Nacionalista, recusava-se a falar espanhol. Aos 17 anos, para estudar arquitetura, mudou-se para Barcelona, onde trabalhou com profissionais locais.

No período histórico em que viveu, as correntes artísticas européias passavam por uma renovação. Era uma época de abertura e flexibilização. A península ibérica não foi o centro desses acontecimentos, mas o artista foi influenciado por seus contemporâneos europeus, e não ignorava as teorias do pensamento de vanguarda. Conhecia as obras e os tratados dos teóricos de então, como, por exemplo, os ingleses William Morris e John Ruskin e o francês Viollet-le-Duc. Desse último, aprendeu a máxima que “o passado não é para ser reconstruído, mas sim para servir como estímulo ou inspiração”. Por ter esses conhecimentos, não podemos classificar sua obra como algo isolado da história ou do contexto catalão.

Arquitetos locais contemporâneos a ele, como Josep Puig Cadafalch e Luís Doménech Montaner, são componentes da corrente artística denominada Modernisme, uma variação do Art Nouveau que expressava o nacionalismo catalão. Mas Gaudí foi o mais destacado entre eles; criou um estilo próprio unindo a tradição da cerâmica espanhola ao neogótico e à arquitetura árabe. E, para tal, pouco desenhou. As obras eram iniciadas com apenas alguns esboços e a maioria das decisões eram tomadas junto com os construtores, no canteiro de obras. Solteiro, dedicou a vida ao ofício de criar edifícios e móveis. Ao sofrer uma desilusão amorosa, não mais se interessou por mulheres.

Barcelona foi um terreno fértil para o jovem arquiteto que, praticamente, só construiu na capital da Catalunha. Na época, a região estava em pleno crescimento. Em 1859, derrubaram-se muros da cidade medieval e, em pouco tempo, a população multiplicou-se por quatro. Com a indústria, principalmente do algodão e do aço, nasceu uma burguesia que se educou interessando-se por arte. Entre esses industriais, está Eusebi Güell, grande me-cenas do arquiteto. Conheceram-se em 1878, quando o catalão apresentou um dos seus primeiros trabalhos na Exposição Universal de Paris. Ao longo de sua vida, o artista realizou seis projetos para esse generoso cliente. Entre eles, destaca-se o parque Güell, um oásis urbano inspirado nos jardins ingleses. Extremamente lúdico, o espaço é marcado por bancos revestidos com cacos cerâmicos, embriagados de cores vivas, que se serpenteiam sobre uma imensa laje.

Com pouquíssimos encargos públicos, construiu praticamente para Igreja e para clientes privados. Um dos primeiros projetos foi a Casa Vicens. Construída em 1883 para um proprietário da indústria cerâmica, a obra já demostrava a vitalidade e a capacidade da fantasia do arquiteto. Separados por poucos passos, duas grandes obras merecem atenção: a Casa Batlló e a Casa Milá. A primeira é a reforma em um edifício de apartamentos antigo, e foi a primeira obra que despertou interesse do público local. Já a segunda, com o mesmo uso mas de dimensões mais generosas, é uma obra de tirar o fôlego. Ridicularizada na época e conhecida como “la pedreira“, a construção parece uma pedra esculpida. O espaço permite que o visitante passeie sobre a cobertura em meio a uma espécie de arquibancada entre fantasiosas chaminés revestidas com cerâmicas brancas.

Mas foi aos 31 anos de idade que Gaudí, quase desconhecido, teve a oportunidade que marcou sua trajetória. Não se sabe ao certo quais motivos levaram a Associação dos Devotos de São José a entregar a tão jovem arquiteto um ambicioso projeto, composto de uma grande igreja, colégio, salas de reuniões e conferências. Essa conservadora congregação pregava a volta aos valores morais. Para a sorte de Barcelona, a proposta de Francisco de Paula Pillar, arquiteto chamado inicialmente para projetar o espaço e seu ex-patrão, não foi construída. Mesmo inacabada, e com uma polêmica finalização, a Sagrada Família impressiona até os incrédulos. Dedicou 43 anos de sua vida à empreitada, os doze últimos, com exclusividade. Recusou-se a aceitar outros trabalhos e passou a residir na obra. Morreu em 1926, três dias depois de sofrer um acidente em que foi atropelado por um bonde. Dizem que se afastou para observar de longe a construção da Sagrada Família, onde está enterrado. Dada a dedicação dele para com a Igreja, no ano passado o Vaticano canonizou-o.

Mesmo sendo um artista espanhol do primeiro time – como Goya, Velázquez, Miró, Picasso ou Dalí – sua obra passou por um longo período de ostracismo devido à perseguição que o franquismo fez aos nacionalistas. Porém, a partir da década de 70, após a mor-te de Franco (que queimou parte da documentação da obra do arquiteto), a Espanha renasceu. A figura do catalão ressurgiu como um mito, voltando a ser estudado como um importante personagem da cultura na virada dos séculos 19 e 20. O interesse por seu trabalho, que gera divisas, fez com que a Espanha transformasse a arquitetura em uma questão de Estado. Não só os museus, mas as escolas, as estações de transporte ou todo e qualquer equipamento público possui enorme qualidade arquitetônica. Prova disso é a habilidade com que foi conduzida a cirurgia urbana para as Olímpíadas de 1992. A cidade abriu-se ao mar, expandiu-se de forma contemporânea com a mesma vitalidade do passado, sendo hoje uma das mais belas e aprazíveis da Europa. Nenhuma imagem, muito menos um texto, é capaz de revelar a dimensão concreta das fantasias de Gaudí e suas conseqüências. Mas neste ano, entre os eventos da comemoração, a maior parte das obras cons-truídas pelo catalão estão abertas ao público. É uma ótima desculpa para visitar, ou mesmo re-vi-sitar, Barcelona.

Bibliografia

ZERBST, Rainer. Antoni Gaudí - Todas sus obras. Benedikt Taschen. Koln. 1997.
ZABALBEASCOA, Anatxu e MARCOS, Javier Rodríguez – Vidas construidas, biografías de arquitectos- Gustavo Gili. Barcelona. 1998.
VAN HENSBERGEN, Gijs – Gaudí The Biography. Harper Collins. London. 2001.

*Fernando Serapião é arquiteto formado pela FAU/Mackenzie e assistente editorial da revista Projeto Design.

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